Sem um lar para herdar

A situação de sem-abrigo/teto em Portugal

Por Mariáh Salazar e Viviane Oliveira

A fragilidade dos laços familiares

As margens da cidade do Porto, junto à VCI, onde vive atualmente num terreno descampado Carla Ramos de 47 anos, que constrói a sua vida.

Ali, entre lixo, ratos e escombros, ergueu uma barraca com lonas, pedaços de madeira e sacos de plástico. É o único espaço a que pode chamar “casa”, ainda que não se sinta segura nem protegida.

A estrutura improvisada está repleta de buracos, resultado das investidas noturnas das ratazanas que ali circulam livremente.

“Já não como e nem consigo dormir”, murmura Carla, encolhida entre cobertores sujos e pilhas de sacos. “Aqui tem ratazanas enormes que me assustam.”

Quando tinha 12 anos, Carla fugiu de casa em Olhão, após passar por episódios longos de violência por parte do pai.

Por causa dessa situação difícil, ela teve um filho, mas, sem condições e apoio, acabou entregando a criança a uma instituição religiosa para ser criada por outras pessoas. “Era uma criança e tive que deixá-lo. Não consegui ser mãe.”

Carla Ramos, 47 anos, Olhão

Na rua, ainda adolescente e sozinha, conheceu um homem mais velho que tinha uma rotina relacionada ao consumo de drogas.

Ela começou a usar heroína e, para sustentar o vício e sobreviver, acabou se envolvendo na prostituição. As noites eram longas e os dias pareciam se misturar. A escola ficou para trás. “Não consegui continuar os estudos."

A vida levou-me por outro caminho, recorda. A dependência aumentou e os relacionamentos tornaram-se cada vez mais tóxicos e perigosos.

Um dos companheiros manteve Carla em cativeiro durante um ano, num quarto trancado no Porto. “Amarrada numa cama”, diz sem rodeios. “Não via a luz do dia.”

Quando finalmente conseguiu fugir, voltou para a rua, carregando consigo o trauma e uma dependência ainda mais agravada. Atualmente, Carla vive com múltiplos problemas de saúde.

Sofre de depressão profunda, insónias e complicações resultantes do consumo prolongado de substâncias. “Já me disseram que tenho que me desintoxicar, mas como, sem dinheiro?”, questiona.

O acesso aos cuidados de saúde é irregular e limitado. “Tenho comprimidos que me deram, mas não sei nem como os tomar direito.” Na sua barraca improvisada, acumulou dezenas de objetos, roupas, garrafas vazias e caixas.

A pedido da entrevistada algumas partes estão desfocadas.

É uma das marcas visíveis do comportamento compulsivo de acumulação que desenvolveu ao longo dos anos. “Levo tudo que encontro, não consigo deixar nada para trás”, explica.

O espaço está saturado e o ambiente, insalubre. O acesso a apoio psicológico é praticamente inexistente.

"Percebemos que muitos utentes viveram uma infância marcada por violência e abusos, num contexto social caracterizado por conflitos graves", como refere Paula Sousa, da AMI.

Carla afirma, nunca ter tido acompanhamento regular e diz que a maioria dos centros de acolhimento não conta com psicólogos.

Segundo ela os programas de desintoxicação disponíveis são poucos e difíceis de acessar, especialmente para quem não tem documentação em dia ou uma moradia fixa.

A proximidade da rodovia traz uma sensação de movimento, mas também de solidão. “Às vezes passo horas a olhar os carros a passar. Penso para aonde vão, quem são aquelas pessoas."

Sem rede de apoio, familiares ou contactos próximos, o futuro parece indefinido. “Só queria poder dormir numa cama limpa e estar longe destes ratos , diz carla com lágrimas aos olhos."

O caso de Carla é um entre muitos que ilustram a intersecção entre pobreza, violência de género e saúde mental.

O seu percurso, marcado por sucessivos episódios de abandono, abuso e invisibilidade, levanta questões sobre a eficácia das respostas públicas e comunitárias para pessoas em situação de vulnerabilidade extrema.

A três dias para uma vida digna e livre

Três dias até o Porto a pé Carlos Filipe de 41 anos e nasceu em Ponte de Lima. Foi criado longe dos pais, que não tinham condições financeiras para o sustentar.

Esteve num colégio até os 16 anos, altura em que passou a viver com a irmã do pai.

Nessa casa, partilhada com os tios e os primos, cresceu num ambiente que se tornaria com o tempo um lar marcado por tensões e desconfiança.

Trabalhou desde cedo, mas nunca viu o seu ordenado como algo somente seu.

De acordo com o próprio, o dinheiro que ganhava era usado para suportar as despesas da casa e para benefício dos primos. Sentia-se explorado, sem voz, num espaço onde a obrigação substituía o afeto.

As desavenças, intensificaram-se ao longo de 2015, até o rompimento definitivo com aquilo que um dia chamou de família.

No dia 8 de dezembro do mesmo ano, Carlos pegou no seu ordenado e abandonou a casa onde vivia. Fez a pé, o caminho que o tornaria livre de Ponte de Lima em direção ao Porto.

A viagem durou três dias. Sem transportes, marchou pelas bermas das estradas, dormindo ao relento. Não avisou ninguém. Estava decidido a não voltar.

Carlos Felipe, 41 anos, Ponte de Lima

Quando chegou à cidade do Porto, encontrou abrigo num estacionamento subterrâneo junto à Praça do Poveiro.

O espaço, embora protegido da chuva, não oferecia segurança. Partilhado por outras pessoas em situação de sem-abrigo, tornava-se ameaçador à noite.

Carlos passou momentos de grande tensão, chegando a temer pela própria vida. E sua ausência não passou despercebida.

Os tios comunicaram às autoridades a sua saída, alegando motivos de saúde mental. “Mandaram a esquadra atrás de mim”, relembra.

"Queriam que me fizessem passar por louco para conseguirem um subsídio de doença mental.”

A perseguição constante e a sensação de vigilância acabaram por causar-lhe traumas profundos. Cada vez que via uma patrulha da GNR, escondia-se por instinto.

Desenvolveu um medo crónico das forças de segurança, o que dificultava ainda mais o acesso a serviços e apoios sociais. “Fugia sempre, achava virem buscar-me para me internar.”

Além dos danos psicológicos, descobriu que os tios haviam feito dívidas no seu nome.

Estas irregularidades deixaram-no com problemas junto do Banco de Portugal, situação que, segundo afirma, ainda hoje o prejudica e lhe impede de ter estabilidade financeira.

A pedido do entrevistado algumas partes estão desfocadas

Apesar de tudo, Carlos mantém um plano para o futuro. Quer concluir o ensino secundário, arranjar um emprego estável e, acima de tudo, sair do abrigo.

Sonha com uma casa sua e com uma vida em que possa decidir os seus próprios passos.

"Há um longo tempo para o tratamento e a pessoa nesta situação não consegue esperar."
Rita Rosas, Psicóloga da Braga Habit

Rita Rosas explica a questão da saúde mental em pessoas em situação de vulnerabilidade.

A história de Carlos é marcada por abandono, resistência e planos por cumprir.

Uma caminhada literal e figurada de norte a sul de si mesmo da casa que deixou para trás até a autonomia que ainda procura alcançar.

Rostos de uma nova chance

"Hoje, formamos uma família construída pela vida."
Henrique Ferreira, 50 anos

Onde a esperança ganha uma nova morada

"Viemos todos do mesmo lugar"
Henrique Ferreira, 50 anos

Henrique Ferreira ajusta com carinho a colcha sobre a cama.

São 10 horas da manhã e a luz do sol entra pelas janelas da Casa do Encontro, iluminando rostos que já enfrentaram muito mais do que as dificuldades das ruas eles conheceram o abandono, a violência, a doença.

Neste quarto simples, onde divide espaço com Orlando Pereira, a rotina é diferente, marcada por um silêncio acolhedor e pequenos gestos de reconstrução.

Henrique tem 50 anos, tem várias tatuagens que carregam uma história marcada pela hostilidade desde muito jovem.

Aos 11 anos, o lar que deveria ser seu abrigo se transformou em um solo de guerras; viu sua mãe sofrer com a violência doméstica, o que o levou a buscar refúgio nas ruas e nas drogas.

Ainda criança, aprendeu que a rua pode parecer menos assustadora do que uma casa sem amor. Agora, adulto, o diagnóstico de esquizofrenia é apenas mais um desafio em sua trajetória, tornando ainda mais difícil a luta diária para se manter firme.

Orlando Pereira e Henrique Ferreira

Ao lado está Orlando Pereira, de 60 anos, sportinguista de coração é um companheiro que a vida trouxe e que traz também a esperança de um futuro melhor.

Orlando conhece o abandono por outro lado, ainda criança, foi deixado à própria sorte.

Sem pai, sem mãe, sem explicações. Mais velho, enfrentou a solidão em hospitais públicos enquanto lutava sozinho contra uma tuberculose que ameaçava não apenas seu corpo, mas também sua vontade de seguir em frente.

O tempo, que antes era visto apenas como uma contagem dolorosa de perdas, agora se transforma em uma oportunidade para uma reconstrução gradual.

Entre histórias compartilhadas à noite e cafés tomados pela manhã, Henrique e Orlando redescobrem algo mais valioso do que o conforto, a dignidade.

Em um mundo que frequentemente ignora aqueles que caem, a Casa do Encontro demonstra que é possível recomeçar mesmo após ter percorrido um longo caminho na solidão.

Quarto de Orlando e Henrique

Dentro deste ambiente acolhedor e com olhares renovados, todos aprendem que sempre é possível cultivar a esperança, mesmo em lugares que pareciam sem vida.

"Não precisamos apagar o que vivemos. O importante é acreditar que podemos fazer a diferença a partir de agora", diz Orlando. Ao seu lado, Henrique sorri de forma sutil, como se compreendesse bem o significado e a beleza dessa fala.

"Para sair da situação de sem abrigo a pessoa tem que querer."
Rita Rosas, Psicóloga da Braga Habit

Rita Rosas esclarece como é direcionado as ações que envolve as pessoas em situação de sem -abrigo.

Vidas em números

A situação das pessoas Sem-Abrigo,
Sem-Teto ou
Sem Casa em Portugal

A partir da revolução de 1974, as políticas públicas em Portugal especificamente dirigidas a pessoas sem abrigo/teto, moradores de rua ou de esquecimento habitacional foram os pontos de acertos e erros de governos em diferentes momentos.

Nos primeiros anos da democracia, o problema de habitação social permaneceu atrás de muitos outros programas, embora o respeito à Constituição de 1976 tenha sido garantido.

Dados os anos entre 1974 e 1990, menos de 5% do orçamento de governo foi destinado ao problema, onde o estado priorizou a saúde e a educação.

Nos anos de 1980, com a entrada na Comunidade Económica Europeia (CEE), foram disponibilizados recursos para projetos como o Programa Especial de Realojamento (PER).

O projeto conseguiu realojar cerca de 170 mil pessoas no ano de 2011. Porém, o PER tinha como foco principalmente as áreas urbanas, o que deixou de lado realidades como as de Henrique e Orlando, que estavam fora das regiões atendidas pelo plano.

Cinco décadas de políticas entre avanços, retrocessos e precariedades sociais

No início do século XXI, as iniciativas sociais nacionais têm sido atravessadas por contradições políticas.

A partir das regências socialistas de 1995 até 2011, o apoio social ao Rendimento Mínimo Garantido (RMG) foi acentuado beneficiando aproximadamente 270 mil famílias.

Contudo, a crise financeira de 2008 denunciou certo enfraquecimento no sistema: a fiscalização da Troika diminuiu aproximadamente 30% dos montantes de apoio social para o governo de José Sócrates.

Paralelamente, fez com que estes abrigos ficassem sem condições de resposta diante do crescimento do número de pessoas em situação de rua.

Entre 2011 e 2015, durante o governo democrata da coligação PSD-CDS, usou de medidas de austeridade que foram implementadas em resposta aos agravamentos da crise financeira e do estado de resgate internacional.

Foram reduções, bem avultadas nas áreas sociais, dimuniundo diretamente os retornos de apoio aos mais necessitados.

Em percentuais, foram 30% as verbas do RSI em 2011 cerca de 448 milhões €/ano sob (RSI), em 2015 um recuou para 320 milhões €, conforme o Ministério da Solidariedade e Segurança Social.

Ao mesmo tempo, as organizações de auxílio social e assistêncial tiveram um aumento de entre 20% e 30% nos pedidos de ajuda alimentar desde 2008, com acréscimo ainda maior em 2011.

Este crescimento, associado ao desemprego e à redução de suportes governamentais, apontaram para um cenário de precariedade generalizada.

A falta de acesso a alimentos dignos e habitação condigna se tornaram faces da mesma moeda: a vulnerabilidade extrema de quem já vivia às margens sociais.

A diminuição no RSI agravou ainda mais batalha contra á pobreza e a redução do acesso a recursos essenciais, como comida e moradia para muitas famílias demostrou-se impossível.

O INE indica que, em 2015, quase 19,5% dos portugueses estavam em risco de pobreza; a grande maioria incluída nesta estatística são idosos e desempregados por períodos prolongados.

O corte orçamental combinado com o desemprego, e a instabilidade económica e o esgotamento das ajudas sociais fortaleceu de forma mútua as diversas etapas da exclusão; como habitação precária e insegurança alimentar.

A Estratégia Nacional para a Integração de Pessoas em Situação de Sem-Abrigo (ENIPSSA 2025–2030), aprovada em 2024, tem como objetivo acabar com esses ciclos históricos de fragilidade e de abandono.

Diferenças entre os partidos políticos ajudam a explicar parte desse problema social..

O PS prefere estabelecer parcerias com ONGs, o PSD apoia o financiamento privado, enquanto o Bloco de Esquerda crítica a falta de investimento em saúde mental, uma questão que impacta diretamente a vida de indivíduos em situação de vulnerabilidade.

Três pilares da desigualdade em Portugal: economia, habitação e imigração

De acordo com a socióloga Madalena Cunha, em entrevista via zoom: o fenómeno tem bases mais complexas.

Precisam ser revistas de maneira mais célere, pois refletem diretamente na distribuição de apoios e recursos.

"É uma questão urgente que está em crescimento em todo o território nacional."
Madalena Cunha, Socióloga

Enquanto países como a Finlândia conseguiram reduzir em 40% o número de pessoas sem-teto adotando o modelo 'Housing First', Portugal ainda enfrenta desafios com respostas mais fragmentadas.

Isso dificultou o controle do aumento de 23% no número de pessoas nessa situação em 2023, totalizando atualmente 13.128 indivíduos sem lar.

Na política habitacional nacional, a burocracia e o foco excessivo na cidade, especialmente através do Programa Especial de Realojamento (PER), deixaram de lado populações rurais e grupos vulneráveis, como vítimas de violência doméstica entre outros.

Lisboa e o Grande Porto concentram metade dos casos, mas cerca de 70% dos municípios ainda não possuem planos locais específicos para enfrentamento dessas questões.

Portugal entre 2022 e 2023, registou um aumento 15% de pessoas sem casa a serem apoiadas pela CAIS, 3% eram imigrantes mais do que em 2020 e 2021, afirma a organização.

Tal duplicação ocorreu em paralelo com o crescimento da imigração no país em 2023, como aponta a (Agência para a Integração, Migrações e Asilo) AIMA.

A maioria deles vem dos países de língua portuguesa chamada CPLP (Comunidade de Países de Língua Portuguesa), e da Europa Oriental, de acordo com o observatório de migrações.

Apesar de 61% possuírem autorização de residência, apenas 29% têm um contrato formal de acordo com a IEFP.

A insegurança laboral em 2023, foi um obstáculo para 3.290 imigrantes sem-abrigo que estavam associados a desemprego com duração prolongada ou trabalho indevido, como construção e agricultura.

Mais de metade não possuía qualificações reconhecidas em Portugal, o que restringe a capacidade de integração no mercado.

Deficiência adicionais envolve falta de validação de competências, o que aumenta a exclusão e perpetua os ciclos de pobreza.

No ano de 2023, 210 candidatos a asilo viviam nas ruas, 38% à espera de resposta da AIMA (Agência para a Integração, Migrações e Asilo) de 2 meses para 1 ano 65% destes relataram discriminação racial em abrigos.

Apesar de um compromisso educacional, o Plano Nacional para a Integração de Migrantes 2022–2025 descumpriu 88% das suas metas até 2024, incluindo 500 vagas habitacionais.

Propostas de regularização de imigrantes, como uma revisão da Lei de Estrangeiros, estão em aberto desde 2022.

Quando o sistema exclui em vez de acolher

Estereótipos e Perfis estão a mudar. O perfil do sem-teto/abrigo/casa “homem, solteiro e sem famílias” é antiquado, porque não se comenta mais.

O exemplo da Socióloga salienta a transversalidade deste fenómeno hoje, sabemos que são mulheres, famílias monoparentais, idosos, crianças e mesmo grupos inteiros a viver no chão das ruas do país.

O envelhecimento da população sem-teto é particularmente preocupante, pois a falta de políticas e estruturas de apoio no sentido geral aos mais velhos é insuficiente.

Já que muitos não podem retornar ao mercado de trabalho.

A escolaridade não é prontamente um marcador de distinção, diferente do passado, muitas pessoas em situação de rua têm graus de instruções muito elevados.

O problema continua a ser economicamente pobre. Contudo, a educação não as protege da pobreza quando o mercado de trabalho se apresenta instável e mal remunerado.

A precarização do trabalho, com contratos temporários e salários baixos, impede a construção de uma vida autónoma e estável, tornando a habitação um luxo inatingível para muitos.

"Quem trabalha não deveria ser pobre.Ter um salário não elimina o risco de pobreza."
Madalena Cunha, Socióloga

Por último, e não menos importante as discriminações sociais continuam a ‘excluir’ num sentido crítico, legitimando as pautas que são próprias destas pessoas.

O preconceito representa a maior parte da desigualdade, e ao identificar as causas deste fenômeno.

Revelou-se muito mais políticas públicas insuficientes e a falta de intervenções políticas e o mal direcionamento dos recursos públicos aprofundam ainda mais as diferenças.

Da Madeira aos Aliados, uma vida entre colheitas perdidas e ausências

David Ferreira de 44 anos, carrega nos ombros o peso de uma vida que se partiu em silêncio. Foi agricultor na Ilha da Madeira, onde cuidava com orgulho as suas plantações.

Durante anos, sobreviveu do que a terra lhe dava. Tinha cultivos diversos e vivia de forma simples, mas digna, com a sua família.

No entanto, em 2020, uma seca severa atingiu a região e destruiu a sua colheita, deixando-o sem sustento e sem saída.

O desastre natural não afetou apenas os seus campos. Trouxe também turbulência à vida familiar. A relação com a esposa 11 anos mais velha começou a deteriorar-se.

Diferenças de pensamento e atitudes tornaram-se irreconciliáveis. O casamento chegou ao fim pouco depois da crise agrícola. David perdeu o chão duas vezes: primeiro, a terra; depois, a casa.

Sem família próxima na ilha e com poucos recursos, decidiu partir. Veio para o continente em direção ao norte, numa tentativa de reiniciar a vida. Mas recomeçar não é fácil quando se chega de mãos vazias.

Acabou por se fixar nas ruas do Grande Porto, entre travessas e esquinas junto aos Aliados. Vive ali há três anos. Um colchão improvisado, uma manta velha, alguns pertences numa mochila é tudo o que tem.

Durante o dia, vagueia pelas ruas. Procura pequenos trabalhos, ajuda dos transeuntes ou das associações locais. À noite, regressa ao mesmo lugar discreto, encostado a uma parede protegida do vento.

O frio e a insegurança são constantes. “Nem sempre durmo direito. Há noites em que só fico a olhar o céu até clarear”, conta.

David Ferreira, 44 anos, Madeira

A voz quebra-se quando fala dos filhos. “Tenho saudades deles, muitas. Mas não tenho como voltar.” O afastamento da família não foi apenas geográfico.

O divórcio e a mudança de vida cortaram os laços, aos poucos. Tenta manter-se informado, mas não tem contacto direto. Não quer ser um peso, diz.

David não se queixa, mas sente a solidão. Reconhece que não é fácil sair da rua depois de nela se instalar. A falta de documentos, de estabilidade e de uma rede de apoio dificultam qualquer tentativa de reconstrução.

"Tentamos construir uma relação de confiança com as pessoas que se encontram nestas condições de vulnerabilidade."
Rita Rosas, Psicóloga da Braga Habit

Rita Rosas clarifica como é prestado o apoio psicológico as pessoas em situação de sem -abrigo.

Ainda assim, sonha com o dia em que possa ter um quarto só seu e, talvez, reencontrar os filhos.

A história de David é uma entre tantas que atravessam as praças e becos das cidades portuguesas.

É a história de alguém que perdeu tudo colheita, casa, família e continua a resistir, dia após dia, entre recordações e esperança.

“Eu realmente sinto saudade dos meus filhos, mas não tenho como voltar”.
David Ferreira

David Ferreira

A rejeição familiar e o abandono não são meros episódios, mas marcas estruturais na vida de quem está em situação de sem-abrigo. "A rutura com a família é o gatilho inicial", explica Lara Pinho, assistente social do Centro Porta Amiga do Porto.

Muitos como David Ferreira, fogem de lares conturbados e encontram nas ruas um refúgio contraditório, um espaço onde a invisibilidade os protege do julgamento, mas os condena à exclusão.

A questão dos sem-abrigo em Portugal vai muito mais além dos problemas estruturais múltiplos do fenômeno.

Se sobrepõe à falta de um teto, uma realidade dos fatos. A fragilidade ou rutura dos laços familiares é um destaque singular aparentemente invisível que lança os indivíduos na marginalidade social.

O Relatório do Inquérito de Caraterização das Pessoas em Situação de Sem-Abrigo 2023, a cargo da Estratégia Nacional para Integração das Pessoas em Situação de Sem-Abrigo ENIPSSA, aponta a ausência de apoio familiar como uma das causas mais dominantes para a gravidade do sem-abrigo.

Em seu relatório a falta desta rede de suporte pessoal se reflete na narrativa já conhecidas e marcadas por conflitos domésticos, casos dramáticos de divórcio, separação, abandono e rotura do lar.

Uma pobreza envergonhada

Quantas histórias ignoramos ao passar pelas ruas?

"É preciso ter muita coragem e vontade para sair desta condição. Mas sozinhos e sem apoios fica impossível."

Entre as montras de luxo e as cobertas sujas

É final da tarde e o centro do Porto pulsa com pressa. Turistas apressados, trabalhadores exaustos e estudantes distraídos cruzam-se nas ruas históricas da cidade, entre o barulho dos autocarros e das conversas inaudíveis.

Entre montras e os cafés movimentados, há um ponto onde o tempo parece abrandar: num recanto discreto na calçada, dois homens permanecem.

Encostado a uma pilastra de pedra, com barba grisalha e um gorro escuro que lhe cobre os cabelos claros e compridos, está António Pedro, de 60 anos.

Os óculos escorregam pelo nariz enquanto segura um livro gasto entre os dedos e observa, com o canto do olho, o movimento frenético da cidade que parece ignorá-lo.

Na outra mão, brinca com um isqueiro. Ao seu lado, encostado à montra de uma loja antiga, meio resguardado por um guarda-chuva, está Maximinos, 35 anos, de rosto jovem, olhos claros.

Maximinos, 35 anos, Ucrânia

É nesse pequeno espaço improvisado, construído com cartão, mantas, sacos e pedras, que António e Maximinos vivem há cerca de três anos.

Ali partilham noites frias, dias longos e um quotidiano marcado pela resistência. António acende um cigarro, inspira devagar e, num gesto silencioso de cuidado, passa uma marmita a Maximinos. Entre os dois, há mais do que convivência há vínculo.

A pedido do entrevistado algumas partes estão desfocadas.

“Chegamos a um ponto que não tentamos mais”, diz António, olhando para o chão por um instante. A frase pesa mais do que o barulho das ruas.

Mais do que o desespero, é uma constatação de quem já percorreu muitos caminhos e bateu a muitas portas, mas todas fechadas.

“Há um organismo que está aqui para ajudar, chama-se Segurança Social, e o que eu vejo é que não há possibilidade de me arranjarem um alojamento, não há possibilidade de me arranjarem um rendimento, não há possibilidade de assistência nenhuma.”
António Pedro, 60 anos

As palavras saem firmes, sem revolta, apenas a constatação crua de quem vive à margem dos sistemas. Para António, a rede de apoio institucional é uma miragem distante.

“É uma assistência social para quem não está mal, para alguém que tem alguma retaguarda. Agora, quem está sozinho, quem não tem nada nem ninguém, não tem assistência social.”
António Pedro, 60 anos

António não fala apenas por si, mas por muitos que partilham a rua como chão e o abandono como companhia.

Maximinos ouve em silêncio e depois intervém. “Estive a cuidar dele como se fosse meu pai”, conta. “Ele, já com a idade que tem, está a esquecer-se de muita coisa, então tive que tomar conta dele.” Entre eles, há cuidado mútuo, partilha, sobrevivência em dupla.

Natural da Ucrânia, Maximinos chegou a Portugal há 18 anos, ainda adolescente, acompanhado do pai. A perda deste deixou-o só num país onde nunca conseguiu conquistar uma identidade oficial.

Trabalhou durante oito anos na pesca, mas o que parecia ser um novo começo foi interrompido por promessas vazias: trabalho sem contrato, salário nunca pago. “Ganha-se pouco e as coisas estão muito caras”, lamenta.

Concluiu até o nono ano da escola, mas os entraves burocráticos deixaram-no num limbo.

Desde então tem enfrentado a precariedade da vida como estrangeiro invisível, sem documentos, sem nacionalidade e sem direito a quase nada.

"Eu quero sair desta situação e levá-lo comigo. É o pai que a vida me deu."
Maximinos, 35 anos

A pedido do entrevistado algumas partes estão desfocadas.

Apesar da dureza do cenário, há entre os dois companheirismo. Entre garrafas de água, sacos e cobertores, há uma tentativa de criar ordem no caos. Um gesto de dignidade. “Eu ajudo-o em tudo”, reforça Maximinos.

"Somos os dois aqui há muito tempo."
Maximinos, 35 anos

A localização onde vivem, apesar da visibilidade, oferece-lhes algum abrigo. Ainda assim, o ruído constante da cidade é um lembrete de que a vida continua, indiferente, para quem passa com pressa.

Os olhares são breves, muitas vezes desviados. O desconforto, em muitos casos, fala mais alto do que a empatia.

A ausência de documentação, a solidão, a lentidão das instituições e a falta de respostas tornam qualquer tentativa de recomeço um desafio quase inatingível.

Mas, ao contrário da imagem estigmatizada que a sociedade frequentemente constrói, António e Maximinos são feitos de afeto, lucidez e história.

Entre uma tragada e outra, António olha para a página de seu livro como quem tenta reencontrar uma parte de si que ainda resiste. Maximinos ajeita o cobertor, recosta-se contra a montra e observa o vaivém da rua.

Naquele canto urbano, entre o tráfego e o descaso, vivem dois homens, que apesar de tudo, continuam, dia após dia, a existir.

Entre as ações públicas e o impacto solidário na sociedade

Nas ruas de Lisboa, Porto e de outras grandes cidades portuguesas, é cada vez mais comum cruzarmos com pessoas em situação de sem-abrigo.

Esta realidade, embora visível, nem sempre é bem compreendida, mas incomoda, por nos confrontar com desigualdades difíceis de ignorar.

Estima-se que cerca de 13 mil pessoas vivem nestas condições em Portugal, um número que continua a crescer e que desafia tanto o Estado como as organizações que tentam ajudar.

Apesar do país contar com políticas sociais estabelecidas, a complexidade do fenómeno do sem-abrigo vai muito além da falta de um teto.

A socióloga Madalena Cunha lembra que o conceito de “sem-abrigo” é mais amplo do que se imagina: inclui não só quem vive nas ruas, mas também quem está em alojamentos precários ou inseguros, como vítimas de violência doméstica ou da exclusão habitacional.

Reduzir o problema a estereótipos, como o do homem desempregado e solitário, é ignorar uma diversidade de histórias e contextos quem existem por trás de cada rosto.

As causas são profundas e interligadas. Com o aumento dos preços da habitação, os salários que pouco mudam ao longo dos anos e os apoios sociais insuficientes surgiu um novo grupo de pessoas vulneráveis: aquelas que tem emprego, mas mesmo assim não conseguem garantir um lugar para viver.

“Hoje em dia, trabalhar não significa deixar de ser pobre”, sublinha a socióloga. A rua, muitas vezes, acaba por ser o último recurso, não porque não existam apoios... mas chegam tarde demais.

Na tentativa de enfrentar esta crise, o governo português lançou em 2024 a Estratégia Nacional de Inclusão de Pessoas em Situação de Sem-Abrigo (ENIPSSA).

Esta política sucede a anteriores estratégias e pretende articular áreas como habitação, saúde, formação e emprego. No entanto, a distância entre o plano e a sua execução continua a ser um obstáculo central.

Falta habitação pública acessível, há morosidade nos processos administrativos e escasseiam profissionais qualificados para acompanhamento de proximidade.

Como o ‘Housing First’ está a transformar vidas de pessoas sem-abrigo em Portugal?

Entre as propostas de maior impacto está o modelo 'Housing First', adotado em várias cidades europeias e já implementado em algumas zonas de Portugal.

Esta abordagem rompe com a lógica tradicional, que condicionava o acesso à habitação ao sucesso prévio em programas de reabilitação ou inserção.

O princípio é simples e poderoso: oferecer, antes de tudo, uma casa. O Housing First parte da premissa de que a estabilidade habitacional é a base para qualquer recomeço.

A eficácia tem sido comprovada. A taxa de permanência na habitação após um ano alojadas ultrapassa os 85%, com melhorias significativas na saúde mental, no combate à toxicodependência, na reinserção laboral e na reintegração social.

Mas para que este modelo tenha escala, exige-se mais do que vontade pública: é preciso investimento, habitação disponível e acompanhamento técnico contínuo, condições que ainda estão longe de ser realidade em muitas autarquias.

De que maneira as ONGs e o governo estão à mudar os casos?

Enquanto as políticas públicas se revelam lentas ou insuficientes, é no trabalho diário das organizações não governamentais que se encontra alguma resposta concreta e imediata.

No Porto, a ASA – Associação de Solidariedade e Ação Social representa essa linha da frente.

O trabalho vai além da distribuição de alimentos ou roupas: inclui escuta ativa, acompanhamento psicológico, mediação com serviços públicos e, sobretudo, a criação de vínculos de confiança com quem já perdeu quase tudo.

“Estar presente com regularidade, sem julgar, é muitas vezes o primeiro passo para que a pessoa aceite ajuda”, afirma Carla Lopes, coordenadora da ASA.

Segundo ela, a confiança é construída a partir de pequenos gestos: lembrar o nome, ouvir sem pressa, respeitar o tempo de cada um.

"Tem que haver uma vontade séria e credível por partes dos órgãos públicos no sentido de organizar políticas sociais."
Madalena Cunha, Socióloga

As ONGs e movimentos de base atuam também como ponte entre as necessidades do terreno e as políticas públicas.

Muitas vezes são elas que identificam casos urgentes, que pressionam o poder local por respostas, que alertam para falhas no sistema sobretudo.

Quando o tema desaparece da agenda mediática e política, o que costuma acontecer fora das épocas de frio ou campanha eleitoral. No fundo, tornam visível aquilo que a cidade prefere não ver.

Uma rede de apoio em conjunto com os colaboradores sociais

Para além das associações tradicionais, têm surgido novas formas de intervenção, baseadas em inovação social, voluntariado jovem e uso de tecnologias.

Projetos como o “Just a Change”, que reabilita casas para famílias em situação de vulnerabilidade, ou a “Comunidade Vida e Paz”, que aposta em respostas integradas de saúde, habitação e ocupação, mostram que há soluções criativas e eficazes quando há articulação entre setores.

"As ONGs são fundamentais, mas não podem substituir o Estado. A responsabilidade primeira é pública."
Miguel Azevedo, Sociólogo

Ainda assim, especialistas alertam para os limites da ação voluntária. Segundo o sociólogo especializado em políticas sociais, Miguel Azevedo, o verdadeiro desafio está em transformar as respostas de emergência em políticas estruturais, com financiamento adequado e continuidade garantida.

As ONGs e os movimentos de base não devem ser vistos como substitutos da política pública, mas sim como parceiros se um sistema que precisa de ser reestruturado e fortalecido.

Um recomeço com dignidade ao ter um novo lar

Resolver o problema das pessoas em situação de sem-abrigo não se resume a oferecer um teto ou a tirar alguém da rua. Trata-se, acima de tudo, de devolver a possibilidade de uma vida digna, uma vida com escolhas, com segurança, com horizonte.

E isso exige bem mais do que boas intenções ou medidas pontuais. Implica acesso a saúde mental, formação, emprego e, sobretudo, um lar.

Significa transformar a tenda improvisada numa casa com portas que se abrem para o futuro, para uma sensação de pertencimento, estabilidade e recomeço.

"Elaborar um plano individualizado de trabalho para cada pessoa e acompanhar a construção de um projeto de vida são prioridades", como destaca Susana Veiga, da LBV do Porto.

Quando alguém é privado de uma casa por tempo demais, perde-se mais do que o conforto: o vínculo, a autoestima, o sentido de identidade também são perdidos.

Enquanto essa transformação não acontece, as tendas continuam a surgir nas praças, becos e passeios das grandes cidades, e as histórias, como as de António

Pedro e Maximinos, continuam a repetir-se, e por detrás de cada uma delas, homens e mulheres que, por diversos motivos, desemprego, dependência, doenças mentais, ruturas familiares, se viram empurrados para fora do sistema.

A rua, como cenário e como realidade, grita por soluções que unam o dever do Estado à força transformadora da solidariedade que alcance a todos.

É nas pequenas ações, nos olhares que não desviam, nos poucos recursos e políticas que resistem, que mora a mudança.

A transformação só será possível quando deixarmos de ver essas pessoas como "os outros" e passarmos a reconhecê-las como parte do "nós".

Podemos escolher olhar, agir e transformar, para que nenhuma história termine debaixo de uma lona, à margem da cidade e do mundo.

Quem Somos?

Viviane Oliveira

Sou Viviane Oliveira António, futura jornalista, dedicada à construção de narrativas éticas, plurais e comprometidas com a justiça social. Acredito que o jornalismo é uma ferramenta poderosa para transformar realidades e dar voz a quem tantas vezes é silenciado.

Mariáh Salazar

Me chamo Maríah Salazar, futura jornalista, exploradora de histórias e do mundo. Acredito que o jornalismo vai além das palavras, é um instrumento de impacto, transformação e conexão entre pessoas. É trazer informação com profundidade, ética e sensibilidade para realidades e silêncios esquecidos.

Agradecimentos Especiais:

Professor : Luís António Santos

Professora: Maria João Cunha

Professor : António Ovídio

Susana Veiga, LBV-Porto

Equipe Ronda da Caridade LBV-Porto

Rita Rosa, Bragahabit, E. M.

Cláudia Lima, Bragahabit, E. M.

Paula Sousa, Centro Porta Amiga Porto (AMI)

Lara Pinho, Centro Porta Amiga Porto (AMI)

Susete Santos, Abrigo Noturno do Porto (AMI)

Jéssica Silva, Centro Porta Amiga Porto (AMI)

Madalena Cunha, Socióloga

Todos os participantes e envolvidos no projeto